SALA DE IMPRENSA

 Estresse do Bem


JB ON LINE, 18 / 11 / 2001


Na última década, o estresse virou inimigo público mundial. Cansaço, dores musculares, impotência sexual, distúrbios do sono, gastrite, alta irritabilidade, tudo passou a ser atribuído à ditadura dos relógios nas cidades grandes. A coroação do estresse como vilão veio no ano passado, quando a Organização Mundial de Saúde lhe concedeu o aposto de ''a epidemia do século 20''. Na mesma época, entretanto, começaram a aparecer as primeiras pesquisas questionando esse consenso e mostrando que o estresse também pode fazer bem à saúde porque estimula o cérebro a produzir hormônios que vão fortalecer o sistema imunológico. A notícia caiu como uma bomba, mas foi de pouca utilidade porque ainda não se sabia exatamente em quais situações o estresse faz bem e em quais detona o corpo. No momento, dezenas de centros de pesquisa estão tentando descobrir justamente que situações e condições são essas. É uma tarefa complicada porque cada organismo reage de uma maneira a cargas idênticas de estresse. A idéia de que o estresse pode pode ser bom já está muito difundida nos Estados Unidos, onde existem até cursos para ensinar como transformar estímulos estressantes em benefícios. O problema é que nem mesmo o mais relaxado dos mortais consegue manter total controle sobre como seu organismo irá reagir.

O que já se sabe é que o estresse pode ser positivo quando tem a conotação de desafio. É o que acontece com profissionais que precisam concluir projetos de alto grau de dificuldade em curto espaço de tempo. A vontade de superar aumenta a disposição e a eficiência e termina tendo impacto positivo também na saúde. Em situações de grande exigência, o estresse não só é positivo mas fundamental. Um piloto de corridas, por exemplo, precisa do estresse para reagir rápido às manobras dos adversários. É isso que o deixa com a atenção redobrada e os reflexos afiados. Se na hora agá, estiver relaxado demais, ele acaba não reagindo rápido o suficiente às demandas da situação. ''Tudo vai depender de como a pessoa encara o evento. Caso se sinta pressionada, o estresse provavelmente vai fazer mal. Se encarar como um desafio, será benéfico para o organismo'', explica o psicoterapeuta João Augusto Figueiró, do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP). ''O estresse também pode ser bom quando a pessoa, ao superá-lo, sente-se forte, aliviada e eficiente'', diz a professora de Psiquiatria da UFRJ, Magda Vaissman.

Também já é consenso científico que ninguém sobrevive sem um mínimo de estresse. ''Ele é importante até para desempenhar tarefas cotidianas'', afirma a psicóloga Rita Passos, da consultoria paulista CPH, especializada em qualidade de vida no trabalho. O estresse começa a atrapalhar quando ultrapassa os limites de tolerância da pessoa. ''Até a morte de um parente pode despertar efeitos positivos, como o aumento da capacidade de se concentrar e resolver coisas'', diz a professora de Psicologia da PUC de Campinas, Marilda Lipp, que dirige o Centro Psicológico de Tratamento de Estresse.

O limite de cada um é ditado por uma combinação de fatores: o tempo de exposição ao estresse, sua intensidade e, principalmente, a capacidade inata de tolerar pressão. Além disso, um mesmo evento detonador do estresse - competição no trabalho, por exemplo - pode ter efeitos positivos ou negativos dependendo do momento. Quem fica durante muito tempo exposto a situações estressantes sem conseguir encontrar maneiras de recompor as energias acaba tendo problemas de saúde. Nesses casos, mesmo um estímulo que a princípio era positivo e gerava boas respostas do organismo, passa a ser altamente nocivo. ''Todo mundo tem um limite de tolerância ao estresse contínuo. Com o passar do tempo, há queda de produtividade e começam a aparecer problemas de saúde, mas não há como precisar quanto tempo isso demora para cada pessoa'', explica o psicólogo José Roberto Leite, coordenador da unidade de Medicina Comportamental da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).