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A vida não imita a arte

 

Fonte: Revista Profissional e Negócios


Empresas se preocupam em ajudar funcionários que sejam dependentes químicos



A autora de novelas Glória Perez sempre procura abordar temas polêmicos em seus textos e que, em alguns casos, retratam o ambiente empresarial. Na novela O Clone, Glória criou o personagem Lobato, um advogado que sofre problemas com o alcoolismo, interpretado pelo ator Osmar Prado.

O alcoolismo e o consumo de drogas são problemas presentes nas empresas mais do que se imagina. A Organização Mundial de Saúde atesta que hoje 10% da população adulta é potencialmente dependente. As empresas estão cada vez mais conscientes desta realidade e estão criando programas de recuperação com resultados positivos.

Contudo, as empresas começam a se preocupar cada vez mais com a questão da dependência química e têm desenvolvido programas de ajuda e tratamento aos dependentes de drogas e álcool.

No Brasil, os programas de recuperação de dependência química começaram a surgir no final da década de 70. "Antes as empresas não se preocupavam com a dependência, porque era vista como um problema de caráter, falta de vergonha e irresponsabilidade", explica Liliana Scheliga, diretora clínica da Solutions Latin America, empresa especializada em Programas de Assistência ao Empregado. "As organizações não sabiam o que fazer com o funcionário, não existia tratamento adequado, e, então, ele era afastado sem qualquer tratamento, nem reintegrado ao trabalho e o resultado era o fato do dependente beber muito mais que antes, porque ele tinha tempo e razão", esclarece.

Osmar Prado considera que as pessoas, com raras exceções, não estão predispostas a aceitar o alcoolismo como doença. "Veja o exemplo do Leônidas, personagem interpretado por Reginaldo Faria, que é amigo do Lobato há muitos anos, mas mantém uma atitude paternalista ao continuar empregando o advogado em função da amizade", relata. "O empresário sabe que o Lobato é competente, mas não confia mais nele em função do problema com o álcool", completa.

Identificar um dependente químico, nem sempre é uma tarefa fácil, porque uma das características básicas da dependência é a negação. Entretanto, as pessoas que fazem uso de alguma substância, geralmente apresentam um padrão de deterioração de comportamento, que vai aparecendo em pequenos atos: perdem prazos, chegam atrasadas, vão toda hora ao ambulatório, vivem com problemas financeiros. "Às vezes, essa pessoa pede ajuda para uma coisa que não tem nada a ver com a substância, porque ela mesma não associa que está tendo problemas por causa do uso e começa a fantasiar e se iludir que não é a substância, pois acredita que consegue parar a hora que quiser", alerta.

O Programa de Assistência ao Empregado é a forma de tratamento utilizada pela Solutions Latin America nestes casos e para outros problemas emocionais. Por este programa, que funciona como um plano de saúde, o funcionário liga para uma central 0800, uma assistente social vai atendê-lo e encaminhá-lo ao profissional mais adequado, que vai ajudá-lo a encontrar os caminhos para resolver os problemas num período breve. "Um ponto importante é a confidencialidade, pois a empresa não fica sabendo do diagnóstico, a não ser que o funcionário autorize", esclarece. "O ideal é que o programa também englobe a família, já que nestes casos ela é considerada co-dependente, pois desenvolve os mesmos padrões de comportamento num jogo mútuo de dependência", analisa.

Soluções caseiras

Empresas de grande porte têm obtido resultados significativos com o desenvolvimento de programas próprios de auxílio a dependentes químicos. A Volkswagen mantém o Programa de Orientação aos Empregados e Dependentes Químicos há 28 anos, com índices de até 60% de recuperação, redução do número e do tempo de internação e diminuição de horas não trabalhadas. Além disso, 62% dos dependentes retomam os estudos.

O programa procura integrar a família ao tratamento do dependente químico, reforçando a solidariedade e os vínculos familiares, estimulando hábitos, costumes e comportamento que promovam um estilo de vida saudável. Além disso, a empresa realiza trabalho preventivo, com informações sobre os sintomas e as implicações da doença na vida social e profissional, promovendo palestras de orientação aos empregados, familiares, alunos do Centro de Formação Profissional (SENAI) e Patrulheiros Mirins, que trabalham em alguns setores da empresa.

Para o dependente químico, oferece acompanhamento individual por psiquiatras (em ambulatório interno) e assistentes sociais e participação em grupos de orientação e apoio, coordenados por assistentes sociais, com reuniões semanais e mensais nas fábricas. Se necessário, os pacientes são internados e tratados na rede credenciada, com 23 ambulatórios e seis hospitais e comunidades terapêuticas. O tratamento é totalmente coberto pelo plano de assistência médica da companhia.

Outra empresa preocupada com a recuperação integral dos casos de dependência é o BankBoston. O banco mantém o programa Friends, criado em 1998 com este nome para simbolizar uma relação de amizade entre a empresa e o funcionário que necessita de tratamento. "Nossa preocupação é com o ser humano, não com estatísticas", afirma Denilson Barbosa dos Santos, diretor adjunto de recursos humanos. "Se conseguirmos recuperar uma pessoa, para nós já será positivo", completa.

Marli Merluzzo, gerente de relações com empregados, explica que o principal foco do Friends é a conscientização, e o banco investe fortemente em comunicação para informar tanto funcionários e estagiários quanto parentes em relação aos problemas com dependência química. "É um programa que além da informação, também visa o tratamento", esclarece. O BankBoston mantém convênios com duas clínicas em São Paulo e fora da Capital busca parcerias pontuais.

O tratamento é subsidiado parte pelo banco, parte pelo funcionário, dependendo do nível de graduação na empresa. "Há uma tabela com os valores subsidiados pelo banco, que podem ser maiores ou menores, variando com o poder aquisitivo do funcionário", informa Marli.