ARTIGOS
Brincar desenvolve autonomia?
(*) Por Ceres Sampaio Artigo originalmente escrito para a Revista da Escola de Pais do Brasil
Há um menino, Há um moleque, Morando sempre no meu coração Toda vez que o adulto balança Ele vem pra me dar a mão. (Milton Nascimento / Fernando Brant)
Quem chega ao Largo da Palma encontra facilmente a Rua do Bangala. Se for antigo morador que viveu ali a sua infância, e se estiver disposto a deixar aberto “o ouvido das lembranças”, certamente escutará ecoando pelas ruas:
“Vamos brincar de picula...”, “Quem começa sou eu...”. “Não agora é minha vez...”, “Não vale você espiou...”. “Na próxima vez eu vou me esconder e ninguém vai me achar...” “Agora você procura...”, “Eu não, quem escolhe a brincadeira começa...”. “Vamos brincar de outra coisa...” “Não quero...”, “É sempre assim, quando você perde quer mudar de jogo...”.
Os limites eram o início e o fim da rua, e o espaço livre possibilitava inúmeras brincadeiras: pular corda, brincar de roda, chicotinho queimado, morto e vivo, barra manteiga.
Brincava-se de tudo. As brincadeiras se sucediam improvisadas com os recursos que tínhamos. E assim, brincando, jogando, ganhando ou perdendo, ia-se aprendendo as regras, aceitando os resultados, lidando com as frustrações, desenvolvendo habilidades, a socialização, a motricidade, a criatividade e cooperação, tudo de forma natural.
Os pais quase sempre observavam sentados nas portas ou debruçados nas janelas. Outros, ocupados dentro de casa, apareciam de vez em quando chamando pelo filho para certificar-se de que estava tudo bem.
Quando não podia ser na rua, o quintal era o espaço preferido. Ali nas brincadeiras de casinha, de escola, de armazém, dramatizando, viviam-se personagens diversos ampliando a compreensão sobre diferentes papéis e relacionamentos humanos.
A caixa de brinquedo era repleta de tesouros: as pedras para jogar capitão, o saco de bolas de gude, as bonecas, retalhos coloridos, pedaços de fita, cordões, a bola de meia, carretéis vazios, a mobília feita com caixas de fósforo forrada de papel de presente. Qualquer material tornava-se um rico brinquedo, porque brinquedos comprados eram poucos e só se ganhava no Natal.
Muito diferente é o que acontece hoje. Não há mais quintais. A violência das cidades tirou das ruas as vozes, os risos e as brincadeiras. As crianças ficaram limitadas ao espaço físico dos apartamentos. Para preencher o tempo em que estão fora, envolvidos pelo excesso de trabalho e pelas novas cobranças da vida moderna, os pais oferecem aos filhos inúmeras outras atividades ou simplesmente reduzem suas opções a infindáveis horas em frente à TV ou em solitários jogos de vídeo game.
Sem dúvida, essa situação que caracteriza uma época de transformações sociais assustadoras, independe do desejo das famílias, mas é necessário reconhecer os riscos que esse estilo de vida traz para o desenvolvimento das crianças.
Não cabe aqui uma abordagem sobre as novas formas de diversões eletrônicas, seus benefícios ou não. O que preocupa é pensar que toda essa tecnologia, todas essas diversões eletrônicas podem estar tirando das crianças a possibilidade de brincar.
Sem dúvida os pais desejam fazer tudo o que for possível para favorecer o desenvolvimento dos filhos em todos os seus aspectos, empenhados em promover uma boa educação, mas curiosamente poucos se preocupam com o que a criança faz de mais importante na vida: brincar.
A criança começa a brincar antes mesmo de poder sentar ou engatinhar. Já aos dois meses, diverte-se com o barulho dos brinquedos e com as gracinhas feitas pelos adultos junto ao berço.
Segundo Haim Grünspum, na obra Jogos que os bebês brincam: “quando aponta um objeto aos seis meses, o bebê quer ser compreendido - quando derruba o mesmo objeto está brincando e quer que o objeto volte, que o cuidador o faça voltar – mesmo quando joga a comida e a mãe fica brava pela sujeira, ele quer fazer a comida voltar. A criança está sempre jogando – está desde o começo da vida brincando”. O surpreendente é que aos quatorze meses o bebê tem sua própria “teoria mental” e sabe que os outros têm idéias diferentes da sua e brincando e jogando começa a impor as suas próprias idéias.
Brincar é um ato tão espontâneo e natural para a criança quanto comer, dormir, andar ou falar. Basta observar um bebê nas diferentes fases de seu crescimento para confirmar tal fato: brinca com as mãos, descobre os pés e faz deles um brinquedo fascinante.
Nos primeiros meses, os móbiles, chocalhos, bichinhos de vinil, todos esses pequenos objetos que fazem parte do universo da criança, quando oferecidos pelo adulto para que possam pegar, morder, ouvir, chamando a sua atenção e despertando seus sentidos, tornam-se importantes para seu desenvolvimento. Através dessas brincadeiras as crianças desenvolvem noções de tamanho, forma, textura.
Brincando ela vai crescendo e descobrindo o mundo, sente prazer em explorar, manipular, encaixar, produzir sons batendo com os objetos. Experimenta mais uma vez e tudo vai sendo registrado no seu cérebro. As cores, o cheiro, a forma, a consistência.
Observando-se as crianças, percebem-se brincadeiras que, inicialmente solitárias, vão cedendo lugar as brincadeiras em grupo, começando o período da “aprendizagem social”. No convívio com outros elas fazem de suas brincadeiras uma verdadeira prática social e aprendem a aceitar regras, colhendo os resultados positivos ou negativos dos seus feitos, aprendendo a lidar com frustrações, a obedecer, a conceder, a sentir prazer com a aceitação do grupo, fundamentos essenciais para a vida futura em sociedade.
Educar não se limita a repassar informações ou mostrar apenas um caminho. É ajudar a criança a tomar consciência de si mesma, dos outros, e da sociedade. É oferecer ferramentas que promovam o seu desenvolvimento. Brincando, a criança experimenta, descobre, inventa, aprende e confere habilidades, além de estimular a autoconfiança e a autonomia, como se evidencia abaixo.
Nas trocas com seus iguais as crianças desenvolvem a autonomia. Através da linguagem no brinquedo e outras atividades, desde a fase pré-escolar, elas exercitam a defesa dos seus direitos e vão aprendendo a argumentar para defender seus pontos de vista. O trabalho em comum constitui excelente oportunidade para estas trocas interindividuais e o jogo com regras, à medida que a criança vai sendo capaz de fazê-lo, se presta à percepção do eu e do outro, fundamental para o desenvolvimento da autonomia. (Íris Goulart)
A autonomia é algo que se conquista, principalmente, pelo aprendizado e/ou pelas oportunidades oferecidas no relacionamento com os outros para que ela possa ser exercida, experimentada.
Há uma riqueza que se perde quando se afirma: não há mais quintais e nas ruas não cabe mais as vozes e risos das crianças.
Precisamos reverter essa situação, aproveitando as ricas oportunidades da vida em família. As crianças adoram brincar com os pais, com os avós, e a família precisa abrir espaços para as brincadeiras, aproveitando as manhãs de domingo, as tardes em casa da vovó, as festas de aniversários.
Assim, inventando jogos, participando, estimulando as brincadeiras, permitindo que espalhem os brinquedos, estaremos oferecendo a forma mais completa que a criança tem de se comunicar consigo mesma e com o mundo.
Brincar é fundamental à saúde física, emocional e intelectual da criança, contribuindo no futuro, para a eficiência e o equilíbrio do adulto.
Reconhecerá isso, aquele que conseguir lembrar da criança que foi e que ainda existe em si e que de quando em vez volta ao quintal.
Há um passado no meu presente Um sol bem quente lá no meu quintal. Toda vez que a bruxa me assombra, O menino me dá a mão. (Milton Nascimento/Fernando Brant)
Fontes:
Revista da Escola de Pais do Brasil Os jogos que os bebês brincam – Haim Grüspun
Piaget Experiências básicas para serem utilizadas pelo professor Goulart Íris Barbosa
A importância do lúdico no desenvolvimento da criança Maria do Rosário Silva de Souza. Disponível em http://www.saudevidaonline.com.br
(*) Ceres Sampaio tem 65 anos, é professora aposentada,e membro atuante da Escola de Pais do Brasil. É muito amada pelos 2 filhos, 3 netos, sobrinhos e sobrinhos-netos que sempre se deliciaram com suas brincadeiras, e que acham que qualquer um pode ter tia, mas somente eles têm Teté.
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