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Índice internacional vira tema de encontro e secretário paulistano considera a possibilidade de aplicar avaliação

Por: Vitor Hugo Brandalise

Fonte: estadao.com.br 29/10/2008

 

Inspirada numa idéia de um país tão longínquo quanto o Butão, pequena nação asiática incrustada no meio do Himalaia, São Paulo pensa agora em medir o progresso com base na felicidade de seus cidadãos. O conceito de FIB (Felicidade Interna Bruta), instituído no Butão em 1972, com a proposta de incorporar conceitos díspares como felicidade e progresso, alegria e desenvolvimento econômico, será apresentado hoje, numa conferência internacional em São Paulo - e conta, desde já, com apoiadores dentro da administração municipal.

“A idéia do FIB é incorporar a felicidade, medida por critérios técnicos em questionários de até 150 perguntas, aos índices de desenvolvimento de uma cidade, Estado ou país”, explica a psicóloga e antropóloga Susan Andrews, organizadora da 1ª Conferência Nacional sobre FIB, que ocorre hoje no Sesc Pinheiros. Para medir o FIB, a percepção dos cidadãos em relação a sua felicidade é analisada em nove dimensões: padrão de vida econômica, critérios de governança, educação de qualidade, saúde, vitalidade comunitária, proteção ambiental, acesso à cultura, gerenciamento equilibrado do tempo e bem-estar psicológico.

“O FIB situa a felicidade como pivô do desenvolvimento, em oposição ao PIB (Produto Interno Bruto, que é a soma das transações econômicas de uma nação), que falha em contabilizar os custos ambientais e inclui formas de crescimento econômico prejudiciais ao bem-estar da sociedade, como o corte de árvores”, afirma Susan. “Os bons resultados no Butão chamaram a atenção da ONU (Organização das Nações Unidas), que passou a estudar a implementação do exemplo butanês em outros países”, afirma. Uma versão internacional está sendo elaborada no Canadá, com aplicação prática prevista para este ano.

Até o início da década de 1970, uma brutal política de isolamento levou o Butão a concentrar os mais altos índices de pobreza, analfabetismo e mortalidade infantil do planeta. Em 1972, juntamente com a abertura econômica, o recém-empossado rei Jigme Singye Wangchuck criou o conceito de Felicidade Interna Bruta, para redefinir o significado de desenvolvimento social e econômico.

Hoje o Butão - cuja capital, Thimphu, com 50 mil habitantes, não possui semáforos e só conheceu televisão e internet em 1999 -, vê os índices de analfabetismo e mortalidade infantil despencarem, a economia se recuperar e as belezas naturais continuarem intactas, com 25% de seu território delimitado por parques nacionais. Desde o fim da década de 1990, observadores da ONU viajam ao País anualmente para estudar o jeito butanês de levar a vida. “As mudanças foram reflexo da maneira como os butaneses passaram a observar a vida, valorizando somente o que realmente interessa”, afirma Susan. “Eles se dizem, hoje, o povo mais feliz do planeta.”

BRASIL

No Brasil, um protótipo de FIB foi colocado em prática em abril, em Angatuba, a 181 km de São Paulo (mais informações nesta página). Na capital, a idéia já conquistou um primeiro aliado: o secretário municipal do Verde e do Meio Ambiente, Eduardo Jorge, que propõe, a partir de 2009, iniciar pesquisas de medição do FIB em subprefeituras da capital. “Seria uma maneira de a cidade contribuir com esse esforço internacional, com adaptações à realidade da metrópole”, disse. “O ideal seria começar numa subprefeitura central, como Pinheiros, e em outra periférica, como Parelheiros. É uma boa sugestão para a próxima gestão.”
Para pesquisadores, a adoção do FIB, em conjunto com outros indicadores, tem o mérito de informar a população sobre sua percepção de bem-estar. “O PIB foi elaborado na década de 1950 e está defasado há muito como indicador de desenvolvimento de um país. O FIB complementa os indicadores de qualidade de vida, juntamente com o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano)”, afirma o economista Ladislau Dowbor, consultor da ONU.

Como ressalva, há valores subjetivos que influenciam na avaliação das pessoas sobre a felicidade. “Para quem não tem nada, qualquer melhoria já representa um ganho enorme em relação ao bem-estar”, afirma o economista Flavio Comim, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). “Mas a ONU analisa o indicador com bons olhos.”

O QUE SE AVALIA
1. Padrão de vida econômica
2. Educação de qualidade
3. Saúde
4. Expectativa de vida e longevidade comunitária
5. Proteção ambiental
6. Acesso à cultura
7. Bons critérios de governança
8. Gerenciamento equilibrado do tempo
9. Bem-estar psicológico

A estudante Laís Sales, de 14 anos, mantém uma rotina: todo dia, antes de ir para a escola, coleta o lixo de casa e separa o material orgânico do reciclável. Sua amiga, Suélen Ferreira, de 13, faz a mesma coisa e o amigo de ambas, Diego dos Santos, de 16, ensinou o pai a fazer isso também na serralheria. Legal, mas em Angatuba, no sudoeste de São Paulo, isso não é novidade.

Os 21.509 moradores separam o lixo e entregam o reciclável a uma cooperativa. Só lixo orgânico vai para o aterro. “A gente faz porque gosta e sabe que é melhor para todos”, diz Vinícius Costa, de 15 anos.

A coleta seletiva integra as ações que a cidade desenvolve para ter qualidade de vida. Outro exemplo é a medicina ayurvédica adotada na rede pública. Conhecida como a mãe da medicina, a ciência de origem indiana trata e corrige pequenos desequilíbrios para evitar que se tornem doença.

O prefeito José Emílio Lisboa, de 57 anos, que administra a cidade pela quarta vez, gosta das experiências. “Pode-se viver com qualidade de vida, em harmonia com o ambiente.” Quando a cidade tinha índice elevadíssimo de mortalidade infantil, ele combateu a anemia das gestantes com alimentos ricos em ferro. No auge do etanol, construiu uma usina para produzir combustível para a prefeitura. A cana de agricultores familiares vira também rapadura, melado e açúcar mascavo para a merenda escolar.

Foi por causa da usina que Angatuba aderiu ao conceito de Felicidade Interna Bruta (FIB). A psicóloga americana Susan Andrews, do Parque Visão Futura, ecovila espiritual auto-sustentável criada após a Eco-92 no interior de São Paulo, foi conhecer o projeto. “Ela gostou da cidade e nos incluiu no programa iniciado no Butão”, diz o prefeito.

Os conceitos de ambiente e vida saudáveis foram levados às escolas. O estudante Vinícius, amigo de Laís, Suélen e Diego, passou a usar máscara na oficina de pintura do pai. “Fiz eles largarem de fumar”, conta. Os adolescentes são do tipo que, se vêem uma garrafa PET, abaixam e recolhem.

O resultado das primeiras pesquisas de FIB no País, em que 450 moradores de Angatuba responderam aos questionários de Susan, mostrou o que já é verificável numa simples caminhada pela cidade: 89% dos participantes se consideram felizes; 89% consideram a qualidade de vida boa ou muito boa; 80% estão satisfeitos com o relacionamento familiar; 94% consideram a saúde satisfatória e 73% estão satisfeitos com a qualidade da educação dos filhos.

A pesquisa, contudo, também aponta preocupações: embora todos se digam preocupados com o ambiente, poucos o protegem e, apesar de todos se sentirem constantemente sob stress, poucos se exercitam. “Também percebemos que a maioria dedica boa parte do tempo para assistir à TV”, disse Susan.

Quem chega de fora, até estranha: a cidade é simples, até pacata, mas muito limpa e arrumada. As pessoas cumprimentam os estranhos, são solícitas, dão informações. “Sabe que aqui 100% do esgoto é coletado e tratado?”, pergunta Roseli Machado, balconista. “E não tem violência. A gente pode deixar a loja sozinha e ninguém mexe”, acrescenta a colega, Érika Vieira.

Os adolescentes gostam dali, mas sabem que logo terão de sair para continuar os estudos. Laís quer fazer Biologia. “Hoje não sinto falta de nada, pois tem muita diversão e internet de graça.” A comerciante Maria de Lurdes Amaral, dona de uma loja agropecuária, considera a cidade ideal “para quem não espera coisas extraordinárias”. Duas das filhas saíram para cursar Direito e Economia na Universidade de São Paulo (USP). “Sempre que podem, voltam.”

A aposentada Jocelin Maria Pedroso, em depressão profunda, trocou os medicamentos tarja preta pelo tratamento com massagens no Centro de Atendimento Psicossocial. Ela diz que foi como se tivesse nascido de novo. “Agora posso dizer que sou feliz.”